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Educação financeira para casais: como dividir as contas?

Educação financeira para casais: como dividir as contas?

O cuidado com as finanças é um tema que tem suas nuances e peculiaridades em cada momento da vida. As regras de educação financeira para jovens não são exatamente as mesmas dos idosos, bem como quem vive sozinho tem dinâmica diferente de quem constituiu uma família. E falando nas finanças conjuntas: como é que fica? Quem paga o que nas contas de casa? Há divisão de todas as despesas, incluindo o valor gasto com anticoncepcional? Quem contribui mais no cofrinho para realizar o sonho do casamento? O que é melhor: abrir conta conjunta ou conta separada?

Pode ser difícil, mas é necessário

Falar com o seu parceiro sobre dinheiro não deve ser tabu. Abrir o jogo em relação às finanças — individuais ou a dois — pode tornar o relacionamento mais transparente e saudável. É o que afirma o professor de Finanças Cesar Caselani, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), mantida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

De acordo com o especialista, num cenário em que o Brasil toma fôlego após forte recessão econômica, iniciada em 2014, a população acentuou o debate sobre o tema. Mas há quem ainda resista. “É muito difícil falar sobre dinheiro”, diz o professor. “Quando chega a hora de apontar uma restrição de consumo, de cortar gastos, se a outra pessoa não tiver preparada, acaba em briga.”

Questão de intimidade

Caselani sabe que não é muito simples dialogar sobre educação financeira no início do relacionamento. “É delicado, por ser o momento da paixão, mas logo a racionalidade começa a ganhar espaço. E quanto mais rápido você deixar as coisas claras, melhor é a relação do casal”, orienta. “Já vi casais se separando por causa disso.” De acordo com ele, evitar o tema não ajuda. “As pessoas querem aproveitar a vida, só que é preciso ter dinheiro para adotar o padrão de consumo que se deseja.”

Psicoterapeuta de casais, Caroline Vieira afirma que, de fato, falar sobre finanças pode favorecer a relação. Ela alerta, porém, que só não se deve tornar o cotidiano engessado, que é o risco principalmente quando se faz questão de dividir exatamente todas as contas e as compras. “Não estamos falando de dependência financeira no casamento e sim de ficar uma coisa mecânica, na ponta do lápis”, diz Caroline. “Vejo algumas vezes uma separação exacerbada, o que é seu é seu e o que é meu, é meu. Vira uma questão de competição.”

Em alguns casos, segundo ela, a situação se agrava. “Atendo casais que trazem para o consultório um questionamento sobre ter filhos. Isso porque a mulher não quer deixar de trabalhar ou trabalhar menos e, consequentemente, ter de parar de contribuir com as contas.”

Como o tema está sendo discutido por casais jovens? Veja quatro relatos apresentados ao Estadão.

“Temos aprendido a ceder um pouco”

A designer Silvelena Gomes, de 24 anos, e a estudante de Direito Quezia Gomes, de 23, decidiram morar juntas há pouco mais de dois anos. Inicialmente, optaram por dividir o aluguel da casa com outras duas pessoas, para não sentirem tanto o peso dos gastos. Mas não demorou para decidirem ter uma casa só para elas, mesmo com pouca folga no orçamento.

Para não se atrapalharem, as duas organizaram as contas de acordo com a data do pagamento de cada uma – Quezia recebe por quinzena e Silvelena, por mês. O salário de Silvelena é um pouco maior, mas as despesas são divididas de forma igualitária. “É assim para a manutenção da casa”, diz a designer.

Quezia conta que, com a organização, sabem certinho quanto podem gastar e investir. “A gente faz um planejamento financeiro, mínimo, entre receitas, gastos fixos e variáveis”, afirma a estudante de Direito. “O que sobra do orçamento, a gente junta para fazer uma viagem ou coloca num fundo financeiro. O dinheiro é junto, né?”

O próximo sonho do casal, que namora há cerca de três anos, é comprar um carro até o fim do ano. “Temos aprendido a ceder um pouco. Sempre colocamos metas, pensamos no que queremos comprar”, conta Quezia. “Isso nos faz gastar um pouco menos ou um pouco mais, dependendo da meta de cada mês.”

“A gente dividia até (o valor) do anticoncepcional”

Desde o início do relacionamento, o publicitário Arthur Souza, de 24, sempre demonstrou abertura para falar sobre dinheiro. Quem confirma é Evelyn Barreto, da mesma idade, com quem ele namora há pouco mais de nove meses. “Geralmente, há um impasse no início, né?”, conta Evelyn. “Mas ele sempre falou quanto ganhava, o quanto ele pagava de aluguel, sua realidade financeira.”

Potiguar, Arthur se mudou há pouco mais de um ano para o Ceará, onde trabalha em uma agência de publicidade. “Foi um choque de realidade: sair da casa dos meus pais e me assumir financeiramente sozinho. Acabei me perdendo um pouco.”

Com o controle de gastos instável, os dois decidiram que Evelyn ficaria com o cartão de crédito de Arthur. “Tinha virado uma bola de neve”, justifica a namorada. “Ele acabava não tendo orçamento para tudo que ele quer fazer.”

O casal também divide uma planilha no Excel para controlar as finanças. No arquivo, eles registram o que cada um desembolsa no mês atual e as projeções de gastos para os próximos meses.

A conversa aberta ajudou também quando a situação se inverteu e Evelyn ficou com pouca grana. “Ele disse que poderia pagar e a gente começou a cooperar”, conta.” É ser franco e dizer ‘não tenho dinheiro, mas não quero deixar de fazer isso’.” O bom senso é refletido na divisão de gastos que fazem. “A gente dividia até o (valor do) anticoncepcional, porque é o cuidado dos dois. E foi ele quem propôs.”

“Jogando na poupança para poder fazer o noivado”

Apesar de muito jovens, Franciele Luz, de 19, e Vinícius Nascimento, de 21, já miram no futuro: juntam uma moedinha aqui e outra acolá para o casório. “É um projeto de longo prazo, porque a gente ainda pretende se formar, construir algum patrimônio antes de juntar nossos trapinhos”, diz o estudante de Produção Cultural da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “No momento, estou tirando uma parte da bolsa do meu estágio e jogando na poupança para poder fazer o noivado.”

Para os dois, falar sobre dinheiro não deve interferir negativamente no relacionamento. “Vez ou outra surge um motivo, uma reclamação de falta de dinheiro, que o mês está meio difícil”, conta Franciele, que ainda não conseguiu um estágio e não tem renda garantida. “A gente é bem honesto um com o outro”, diz Vinícius. “Quando os dois podem pagar, os dois dividem. Quando só um pode pagar, a gente se acerta depois.”

Vinícius ressalta, ainda, que o ideal para o casal é sempre dividir. “Porque a grana não é muita para nenhum dos dois lados”, justifica. A estudante de Psicologia concorda. “Quando ele pode pagar e eu não, ele paga. E vice-versa.” No próximo mês, os dois têm uma viagem marcada. “Eu paguei a hospedagem e ela, o ônibus. Tentamos fazer de uma forma proporcional. Um vai quebrando o galho do outro”, garante o baiano.

“É como se tivéssemos um só salário, fôssemos uma só pessoa”

O porteiro de prédio comercial Leonardo Silva, de 36, e o atendente de loja Henrique Duarte, de 31, já nem se lembram como é ter contas individuais. Juntos há mais de 13 anos, os dois planejam e pagam todas as despesas de forma conjunta. “Tudo que compramos, que gastamos, pagamos juntos. Isso é desde sempre”, lembra Henrique. Leonardo concorda. “A gente nunca deixou o dinheiro falar mais alto”, diz o lojista. “Contas minhas são contas dele. É como se tivéssemos um só salário, fôssemos uma só pessoa.”

Desde o início da relação, relembra Henrique, os orçamentos nunca se separaram. Foi a forma que acharam para melhor aplicar as rendas individuais na construção dos objetivos do casal. “Até pra saber como estamos gastando nosso dinheiro, né?”.

Para Henrique, a união das finanças permitiu a conquista do primeiro grande sonho: comprar uma casa. “Estávamos guardando o dinheiro e, graças a Deus, deu certo”, comemora. Leonardo já revela o próximo plano conjunto. “Queremos conseguir nosso transporte próprio, o carro.”

E as suas finanças, como vão?

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Fonte:
Estado de São Paulo

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