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Segurança digital: alarmismo dos pais em relação à internet pode não ajudar a proteger jovens

Segurança digital: alarmismo dos pais em relação à internet pode não ajudar a proteger jovens

A perspectiva de que nossos filhos possam estar frequentando fóruns na internet em que são expostos a conteúdos que incitam ódio, violência, misoginia e racismo causa pânico em muitos pais. Essa discussão foi iniciada novamente em razão do ataque na escola em Suzano (SP), em que dois jovens armados mataram oito pessoas.

Não faltam notícias aterrorizantes sobre conteúdos mal intencionados na internet, alguns que surgem de maneira despretensiosa em meio a vídeos infantis e outros que adolescentes encontram ao buscarem por fóruns com temas específicos.

Deep web

A deep web, essa entidade meio misteriosa, nada mais é que sites e fóruns um pouco mais escondidos "por vezes é preciso navegador especial para acessá-los, ou não estão facilmente buscáveis no Google", para evitar que sejam constantemente derrubados por autoridades ou pelas empresas que hospedam conteúdos e para melhor garantir o anonimato de quem os frequenta.

Seria, no entanto, por demais simplificar as coisas achar que crianças ou adolescentes tropeçam inocentemente nesse tipo de conteúdo e de alguma forma são influenciados ou levados a cometer crimes como o ocorrido em Suzano.

Como qualquer comunidade online, esses fóruns da deep web atraem aqueles que têm um interesse específico e encontram na internet seus pares, que por uma razão ou outra não acham na vida real.

Não há só lados ruins

Esse tipo de conexão mediada pela internet pode ser, e muitas vezes é, saudável. Jornalistas perseguidos por seus governos, por exemplo, podem trocar ideias sem terem suas identidades rastreadas.

Entusiastas de peixes beta do tipo crowntail também podem encontrar online outros aficionados, que dificilmente encontrariam na vida real. Grandes amizades que depois se transpuseram para a vida real começaram em comunidades de fãs de uma determinada banda ou de certa marca de carro.

Infelizmente, aqueles que nutrem sentimentos de rejeição transmutados em ódio ou pensamentos violentos também encontrarão, sem muita dificuldade, comunidades em que poderão conversar com outros que se sentem da mesma forma e podem chegar a trocar informações sobre como se armar e como planejar ataques, além de serem encorajados a cometer tais atos. Quem procurar achará na internet, infelizmente, tudo isso e muito mais conteúdo odioso.

Cabe às autoridades derrubar conteúdo realmente criminoso e processar os responsáveis, mas é ilusão achar que é possível limpar e policiar toda a web. Isso sem falar nas mensagens trocadas em grupos fechados, via celular.

O papel dos pais

Aos pais, resta tentar mostrar aos filhos as vantagens da vida offline (ainda que seja dificílimo dar o exemplo, já que nós mesmos, adultos, somos sugados por redes sociais e assemelhados) e proporcionar a eles a convivência em comunidades reais e saudáveis, seja família, escola, igreja, grupo escoteiro ou time de futebol.

Quanto à atividade online dos filhos, assim como monitoramos com quem eles andam na vida real, as "ruas" que eles frequentam na internet também devem ser objeto de conversas constantes. Tratamos um pouco sobre essa questão aqui.

Nada disso garante que seremos capazes de proteger nossos filhos de topar com conteúdo grotesco ou inapropriado, como supostas mensagens que incitam violência em meio a vídeos para crianças no YouTube. Ainda que seja possível restringir o acesso à internet com crianças muito pequenas, logo elas crescem e passam a ter alcance além daquele controlado pelos pais. Acompanhamento e discussões abertas sobre esses temas tendem a ser as melhores soluções, um meio termo entre o alarmismo e a total falta de supervisão.

Fonte:
Folha de São Paulo

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